Palmeirense, profeta, paizão e estrategista: as facetas de Cuca

No dia 16 de janeiro de 2015, Cuca esteve na Academia de Futebol e disse: “Joguei aqui em 1992, quando perdemos a final do Paulista. No futuro, se Deus quiser, trabalharei aqui como treinador”

À época, ele era técnico do Shandong Luneng, time chinês que enfrentaria, dias depois, o Verdão de Oswaldo de Oliveira em um amistoso no Allianz Parque.

Foi a primeira profecia de Cuca. Pouco mais de um ano depois, no dia 14 de março de 2016, o treinador era oficializado como o novo comandante do clube, em sucessão a Marcelo Oliveira. Naquela data, além de uma camisa com o número 8 às costas (igual à de seu tempo como atleta), recebeu uma missão difícil: reabilitar o Palmeiras na Copa Libertadores.

Na competição continental, ele bem que tentou, mas não conseguiu a classificação para as oitavas de final. No Paulista, após um início cambaleante (foram três derrotas seguidas), levou o time à semifinal, quando parou no rival Santos, nos pênaltis.

Ainda ‘anestesiado’ após a partida na Vila Belmiro, falou sobre o campeonato que estava por vir:

“Vamos brigar, vamos ser campeões. Vamos fazer tudo certinho, a começar por amanhã (segunda-feira). O Palmeiras sai da melhor forma que poderia, se é que existe isso (após sair perdendo por 2 a 0, o Alviverde empatou com dois gols de Rafael Marques nos minutos finais). Com honra, dignidade, dentro de um campeonato irregular. A gente sai de cabeça erguida. Vamos buscar o Brasileiro”. Parte da imprensa ficou perplexa. Alguns adversários viram o discurso como ‘presunçoso’. Mal sabiam eles que se tratava de outra profecia.

No último domingo (27), após a vitória sobre a Chapecoense, Cuca era uma das pessoas mais emocionadas no gramado e no vestiário. Um dos motivos? Ele era palmeirense na infância. E a paixão surgiu para provocar o seu pai corintiano.

“Meu pai era um corintiano chato, que torcia para a Argentina. Meus tios eram palmeirenses. Os três já morreram, infelizmente. Então, era uma briga para me puxar, né? Como meu pai pegava no meu pé por causa da Argentina, contra o Brasil, eu fiquei palmeirense. Ganhei uma camisa do meu tio e fui usando sempre”.

Como jogador, em 1992, Cuca levou esse sangue italiano à campo. Era raçudo, brigava por todas as bolas e caiu nas graças da torcida alviverde. Nas comemorações de gols, fazia o sinal de uma faixa no peito, indicando que o time sairia da fila de títulos que amargava desde 1976. E, apesar do pouco tempo no clube, ganhou o cântico “Olê olê olá, Cuca, Cuca”. Em 2016, enfim, ele pôde soltar o grito de campeão pelo Palmeiras e novamente ouvir a sua música das arquibancadas. Também comprou um relógio verde, que, assim como a calça vinho da sorte, o acompanhou o tempo todo.

Antes de o Brasileiro começar, Cuca levou o time para Atibaia-SP. Os dias sem jogos e de muito trabalho contaram com novidades. Róger Guedes, que havia chegado um pouco antes por indicação da comissão técnica, juntou-se a Tchê Tchê, revelação do Paulista pelo Audax. Desde o início, Cuca testou e comprovou a versatilidade do jovem reforço, observado pelo auxiliar e irmão mais novo, Cuquinha. Na primeira rodada, as trocas de posições constante com Jean chamaram a atenção de todos, sobretudo dos adversários.

Para a zaga, a comissão técnica trouxe o colombiano Mina, destaque do Santa Fe. O time ganhou em qualidade defensiva e em altura. Yerry e Vitor Hugo terminaram o Brasileiro com quatro gols cada. Mina marcou, por exemplo, contra Santos, São Paulo e Corinthians. Pouca coisa?

O lado estrategista se mostrou presente em outras situações ao longo do torneio. Egídio e Zé Roberto revezaram na esquerda de acordo com a proposta do jogo. Zé foi decisivo também atuando como meia, contra o Santa Cruz, em pleno ‘mundão’ do Arruda. Fabiano entrou na parte final, deslocando Jean e Tchê Tchê na contenção, e foi bem. Thiago Santos, sempre que utilizado, desempenhou a função de cão de guarda com excelência. Moisés flutuou pelas posições de primeiro, segundo e terceiro homens de meio de campo, e virou uma arma mortal nas cobranças de lateral. Erik, Leandro Pereira e Rafa souberam aproveitar quando as chances apareceram.

Se já não bastasse as qualidades em campo, fora dele, Alexi Stival, pai de duas mulheres, foi um paizão para os atletas. Ele precisou usar Vagner, Jailson e Vinicius Silvestre no gol por conta da lesão de Fernando Prass e teve que saber dar confiança a todos em momentos tensos. Acreditou em Allione quando todos o crucificariam. Acreditou também em Cleiton Xavier e foi recompensado com gols decisivos. Colocou em campo um Alecsandro injustiçado com um falso doping. Passou a mão na cabeça e acalmou um jovem Gabriel Jesus em seca de gols. Deu a faixa de capitão a um Dudu apenas guerreiro e não mais problemático.

No cotidiano, integrou todos os departamentos. Exigia sempre o melhor para o seu elenco. Defendia seus atletas em entrevistas. Instituiu a ‘pelada’ às sextas-feiras para os funcionários em geral – e, até no campinho, não admitia perder. Por tudo isso, extravasou no Allianz Parque. Sorriu, chorou, cantou, rezou, agradeceu e se ajoelhou para Nossa Senhora. Mostrou, em poucas horas, todas as facetas do Cuca campeão brasileiro de 2016.

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Autor: MP

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