Crônica: Da sova ao sono

Entre o desastre de 2013 e a vitória de ontem, ambos contra o Mirassol, o sentimento do palmeirense foi renovado. O Palmeiras voltou.

Carlos Massari (@carlosmidiasep)
Colunista da Mídia Palmeirense

Minha primeira memória futebolística é a final do Campeonato Paulista de 1992. Palmeirense, meu pai chamou um amigo muito próximo, são-paulino, e seu filho um pouco mais velho do que eu para acompanhar o choque-rei decisivo em casa. Eles comemoraram cada um dos quatro gols do rival levantando o dedo indicador para o alto. Em algum momento da partida, eu desisti de assistir e fui brincar na garagem: ainda não fazia ideia do valor que aquilo possuía.

Em termos de torcida, eu fui uma criança feliz. Como relatado acima, o último momento do calvário alviverde das décadas de 80 e 90 foi onde eu comecei a acompanhar o esporte. Já capaz de saber as escalações, zoar os amiguinhos na escola e entender o que é um clássico, vi todo o luxo da era Parmalat. Muitos torcedores devem ter esperado mais de uma década para ver um título, eu esperei seis meses. Privilegiado.

O Palmeiras com o qual eu me acostumei era um Palmeiras vencedor. Que chegava para disputar todos os títulos, que era cheio de ídolos, que era temido e respeitado. A década de 90, na qual vivi minha infância, via o alviverde como senhor dos campos brasileiros. Houveram sim alguns duelos excepcionais contra os rivais, e chegamos a sair derrotados. Mas, na maioria das vezes, vencíamos. Sair vestindo o manto era corriqueiro.

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No dia 27 de Março de 2013, o Palmeiras entrou em campo para enfrentar o Mirassol, no estádio José Maria de Campos Maia, com Fernando Prass, Weldinho, André Luiz, Marcos Vinícius e Juninho; Márcio Araújo, Charles, Léo Gago e Wesley; Leandro e Caio Mancha. Você pode argumentar o contrário, mas é possível que esse seja o pior onze que já fardou representando o alviverde paulistano.

De todos os vexames dados pelo Palmeiras na década de 2010, esse foi um dos mais duros de se engolir. Não era um time grande do outro lado. Nem mesmo um time pequeno em boa fase. Era o Mirassol, lutando contra o rebaixamento para a A-2 e sem vencer havia três partidas. E eles nos atropelaram. 3 a 0 em 11 minutos, 6 a 2 no intervalo. Felizmente, pararam por aí. O risco da humilhação ser ainda maior era real.

Aquele dia poderia ter sido o enterro oficial do Palmeiras. Disputando a Série B do Brasileirão, perdido entre gestões ridículas, amargando atletas de quinta categoria em campo. Sobrava a torcida. Mas mesmo ela estava cansada.

Abatido, destruído, violentado, estraçalhado. O orgulho palmeirense deixou de existir, pouco a pouco, durante os anos de vacas magras. Atletas de clubes pequenos não nos respeitavam mais. Sabiam que tinham, ao enfrentar nossos péssimos elencos, a chance de fazer história. Foi assim com o Mirassol em 2013 – que, vale dizer, acabaria o campeonato rebaixado.

Imagine como deve ter sido para quem tem a primeira memória futebolística em 2010. Tudo que essa criança conheceu na infância foi a tristeza. Provavelmente, se perguntava o porquê de torcer para aquele clube incapaz de vencer. De dar alegrias. Constantemente ridicularizado na escola, entre os amigos, até mesmo pelos adultos. Nós, que vivemos a década de 90, sabíamos da história e do potencial. E, mais: estávamos calejados. As crianças que tinham ali seus primeiros contatos com o futebol, não.

De qualquer forma, aquela sova precisaria representar alguma ruptura. De início, não foi o que aconteceu. Mas o ano de 2013 de Palmeiras, olhando em um panorama geral, até que foi digno: campanha na Libertadores à altura do elenco, acesso tranquilo na Série B. O maior sofrimento ainda por vir seria a luta homérica contra um novo rebaixamento em 2014. Mas depois, as glórias voltariam a florescer.

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Eu acredito que a relação de cada torcedor com o clube é diferente. Depende da bagagem que trazemos, tanto como torcedor, quanto como pessoa. Confiar plenamente no Palmeiras ainda é difícil. Eu só conheci a felicidade por cerca de sete anos, mas depois veio mais de uma década de trevas. Quase como um Darth Vader sendo sugado pelo lado negro da força, o sentimento positivo que existia foi sendo transformado em uma desesperança atroz, em quase que uma espera por quando a “palmeirada” viria. 2016 trouxe um pouco de claridade a esse sentimento.

Acho que a maioria dos palmeirenses mais velhos se sentem assim. Mas volto a falar sobre aquela criança que começou a acompanhar o clube em 2010. Ela teve quatro anos tenebrosos, mas já vem de dois positivos. E são essas as memórias construídas em sua cabeça de forma mais relevante. O título brasileiro, o melhor elenco do país, o futebol convincente. Novamente, é fácil torcer para o Palmeiras. Só não sei que traumas foram criados nesse pequeno. Eu já era grande o bastante quando as tragédias começaram e, ainda assim, as trust issues duram.

Quando eu saía com o manto ali por 2014 ou 2015, era comum ouvir frases como “essa roupa aí tava guardada faz tempo”. Hoje, não mais. E se, quando criança, usá-lo era rotina, para essa nova geração é só agora que se conhece a sensação de andar livremente por aí de verde e branco.

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Na noite dessa quarta-feira, o Palmeiras voltou a encontrar o Mirassol. Desfigurado, desentrosado e sem muitos titulares, viu do outro lado um rival que é bem melhor que a versão de 2013. E venceu sem sustos. Foi um jogo sonolento, difícil de ser assistido. Mas o placar de 2 a 0 foi construído naturalmente e a equipe amarela nem chegou a ameaçar o gol de Fernando Prass.

Completamos a plenitude do ciclo. Entrávamos em campo quatro anos atrás com a sensação de que qualquer partida poderia ser uma humilhação nova. Tranquilidade não fazia parte do nosso dicionário. Hoje, faz. Mesmo sem as grandes estrelas, dá pra afastar um rival como o Mirassol da mesma forma que nós afastaríamos uma formiga. Ali, de olhos meio fechados, sem se incomodar, só jogando o braço para o lado, acertando e voltando a se virar confortavelmente na cama.

Da sova ao sono, o Palmeiras voltou. As crianças podem ser felizes novamente, nós, adultos, também. Torçamos para que gestões irresponsáveis não coloquem tudo a perder mais uma vez, porque já temos problemas emocionais o suficiente causados pelas intempéries passadas.

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Autor: MP

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